A merda que temos feito
Rio, cá com meus botões, quando ouço alguém desdenhar a metafísica — aquela parte da filosofia dedicada a investigar a natureza da realidade, a existência do ser e os princípios primeiros que estão além do mundo físico e sensível.
Rio, igualmente, quando as pessoas se assombram com a cosmologia filosófica — natureza do tempo, o infinito, causalidade e razão da existência —, ou mesmo a cosmologia física — origem, estrutura e evolução do Universo.
Todas enfrentam a mesma maldição: abordam questões que dependem de suposições, ou seja, hipóteses pouco compreensíveis ou dificilmente testáveis. Um pouco menos talvez a cosmologia física, desde que se descobriu, e não faz muito tempo, que a nossa Via Lacta é apenas um ponto no Cosmos, este Cosmos que é 70% matéria escura expandindo-se além da velocidade da luz, expansão que está esticando o espaço profundo e nos levando a todos a um distantíssimo mas provável fim.
Minha íntima ironia frente ao desdém ao metafísico e ao espanto ao cosmológico tem uma razão concreta: os campos de estudo dessas matérias, ao contrário do que afirmam alguns estudiosos, especialmente os do ramo social, são em tese essencialmente empíricos. O fato de nossa espécie de meros 350 mil anos de existência ainda ignorar a natureza da realidade, bem como a origem do Universo, por exemplo, não significa que tais conhecimentos sejam inalcançáveis pela cognição humana. Isso é lógica elementar, aliás outra parte da filosofia.
O problema é que temos vivido, ao menos desde o declínio do pensamento grego clássico e o domínio do Império Romano — a partir de 146 a.C., após a Terceira Guerra Púnica —, sob uma visão prática da realidade. Isto, sem dúvida, nos impulsionou materialmente; foi determinante para que mais adiante se desse o desenvolvimento das ciências naturais e, a partir delas, o advento das modernas tecnologias que definem nosso atual modo de vida.
Ocorre que nos escondermos de monstros não faz com que eles deixem de existir. E como são monstros presentes em nossos pesadelos, e até mesmo em nossa mundana existência — pois é impossível olhar para o céu e não pensar; olhar para nossa imagem no espelho e não questionar —, a metafísica e as cosmologias filosóficas e físicas são incontornáveis; tentar ignorá-las só contribui para estressar ainda mais o nosso já conturbado espírito.
Só há uma saída para superar esses monstros: encará-los de frente. Por isso tenho defendido que o estudo da grande Filosofia, em todos os seus ramos, precisa começar cedo, a partir da primeira idade. Já dispomos de modos pedagógicos e meios tecnológicos capazes de apresentar esses assuntos a cada faixa etária: lógica/raciocínio, epistemologia/conhecimento, ética/princípios, política/sociedade e governo, estética/natureza do belo, axiologia/hierarquia de valores, além da metafísica e cosmologias.
Nossa hipocrisia e burrice não nos permitem enxergar que, querendo ou não, tais questões já se encontram incorporadas ao nosso cotidiano. A diferença é que, deixadas ao léu, como estão (tal qual a sexualidade, transformada em tabu), sem uma abordagem formal e adequadamente estruturada, elas nos são transmitidas desde a infância de maneira torta, deturpada, corrompida, imprestável, gerando falsos conhecimentos alimentadores de comportamentos erráticos e esquizofrênicos.
Esta é a merda que temos feito, o vírus hereditário que continuamos transmitindo, para a desgraça continuada da nossa espécie. Mas, como sou pessimista da razão e otimista da vontade, conforme nos ensinou Antonio Gramsci (1891-1937), admito que expressar essas ideias em redes sociais globalizadas nos proporciona uma chance de que mais indivíduos tomem ciência e consciência do caminho civilizacional que precisamos trilhar. Oxalá!

